Entrevista: Somos todos Mexicanos: Uma Conversa com Murilo Seabra
| Date | 01 September 2019 |
| Author |
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199702ZU31
ISSN (e) 2343-5763
~Vol.
21
(3)
:
796-813.
2019
796
ENTREVISTA:
SOMOS TODOS MEXICANOS: UMA CONVERSA
COM MURILO SEABRA
We are all Mexican: An interview with Murilo Seabra
Murilo Seabra e Arthur Xavier
INTRODUÇÃO
Por que não se estuda pensadores brasileiros nos cursos de filosofia? Onde é que eles
estão? E o problema da falta de pensadores brasileiros nos cursos de filosofia é um
problema que afeta apenas a comunidade filosófica brasileira? Ou o que temos aqui é a
expressão local e particular de um problema político mais geral? Na seguinte entrevista,
realizada por e-mail entre 22 de maio e 31 de julho de 2019, Murilo Seabra fala do
estranhamento que causa a expressão “filosofia brasileira”, das dificuldades objetivas e
subjetivas que quem sai dos trilhos precisa enfrentar, e nos pede para pararmos de bater
continência política e intelectual para as potências hegemônicas.
Palavras-chave: geopolítica do saber; justiça epistêmica; filosofia no Brasil
Arthur Xavier: É possível traçar a genealogia do pensamento filosófico à
brasileira? É evidente a presença europeia, marcadamente francesa, inclusive na
forma que lemos autores como Hegel, por exemplo. A despeito disso, há a
possibilidade de nos subtrairmos a essas influências? E se nos subtrairmos a elas,
pode restar, ainda, algum pensamento original?
Murilo Seabra: Antes de responder sua pergunta, quem sabe até mesmo ao
invés de respondê-la, talvez seja interessante examinar como ela tende a atingir os
membros da comunidade brasileira de filosofia no plano emocional. Isto é, talvez seja
melhor tomá-la não como uma pergunta sobre o meu ponto de vista particular, mas
como uma pergunta sobre o ponto de vista da comunidade brasileira de filosofia de
maneira geral, ponto de vista que, apesar de já não ter sobre mim a mesma força que
tinha antes, continua, de certa forma, influindo sobre o meu modo de pensar. Ou talvez
seja melhor falar não em “ponto de vista”, mas em “sentimento de vista”, em “pathos
Doutor em filosofia pela La Trobe University, Melbourne, Austrália. Email: murilorseabra@gmail.com
Formando em direito pela Universidade Católica de Pernambuco, Recife, Brasil. E-mail: arthuroxr@hotmail.com
Murilo Seabra e Arthur Xavier
Telos Vol. 21, No. 3 (2019). 796-813
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de vista”. Porque aquilo que interessa mesmo não é o que nosso intelecto tem a dizer.
Aquilo que interessa é o que as nossas emoções têm a dizer.
Na pele da sua pergunta está inscrita uma divisão geográfica bastante precisa.
De um lado, a França, a Alemanha, a Europa. Ou mais especificamente, o norte
atlântico. Do outro lado, o Brasil e o resto do mundo, em todos os sentidos da palavra
“resto”. E além dessa divisão geográfica, a sua pergunta aponta também para uma
divisão epistêmica entre influenciadores e influenciados, entre mestres e aspirantes,
entre escritores e leitores, entre desbravadores e seguidores. Essas duas divisões, a
geográfica e a epistêmica, que se reforçam mutuamente, estão firmemente gravadas nas
entranhas dos membros da comunidade filosófica brasileira, formando os sulcos e
reentrâncias por onde correm seus pensamentos, projetos e desejos. Não estou dizendo
que você está sendo dualista ao opor a França ao Brasil, o norte atlântico ao resto do
mundo. Estou dizendo que você está captando algo com a sua pergunta. Vo cê está
captando um dualismo que está aí presente, um dualismo que está dado. A oposição
entre a França e o Brasil, entre o norte atlântico e o resto do mundo, é uma oposição
que está marcada à ferro e fogo na mentalidade acadêmica brasileira. Apesar de não
pensarmos de maneira dualista, sentimos de maneira dualista. O que eu sinto quando
você fala em filosofia à brasileira? O que eu sinto quando você se refere à Europa e à
França? O que eu sinto quando você fala em Hegel? E quando você fala em
originalidade? Não parece meio estranho, meio destoante, falar em originalidade
quando o assunto é a filosofia brasileira? Não parece mais natural falar em originalidade
quando o assunto é a filosofia francesa?
É justamente po r me parecer natural pensar em termos de originalidade acerca
do pensamento europeu que fiz essa pergunta. É claro que se, por um lado, o
aspecto emocional pode ser usado como diagnóstico, por outro, o intelecto serve
como seu porta-voz. É justamente pela presentificação dessa ausência – ou seja,
por emocionalmente reconhecer como faz falta, para um povo, a autonomia
intelectual – que busco uma semente brasileira de pensamento. Sendo assim,
consciente da estranheza e até do ressentimento que habitam essa falta, pergunto:
onde está nosso pensamento? Pois, ao menos para mim, meu “sentimento de vista”
se encontra marejado, justamente pela carência desta autonomia – isto é, de uma
originalidade filosófica brasileira.
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